Cachês milionários acirram disputa por verbas e geram debate sobre gastos no São João do Nordeste
Crescimento dos cachês em festas juninas preocupa órgãos de controle, que discutem limites para preservar as finanças dos municípios.

Os festejos juninos de 2026 trouxeram à tona um debate cada vez mais intenso sobre os altos valores pagos a artistas contratados por prefeituras do Nordeste. Com cachês que chegam a R$ 1,5 milhão por apresentação, gestores municipais e órgãos de controle passaram a discutir mecanismos para conter a escalada dos gastos durante o São João.
O tema ganhou força após municípios destinarem parcelas significativas de seus orçamentos para a contratação de atrações nacionais. Um dos casos citados é o de Caculé, no sudoeste da Bahia, que contratou a dupla sertaneja Zé Neto e Cristiano por R$ 905 mil, valor equivalente a cerca de um quarto de todo o orçamento anual da Secretaria de Cultura do município. Os recursos foram viabilizados por meio de emenda parlamentar.
Segundo levantamento do Ministério Público da Bahia (MP-BA), os cachês dispararam desde 2022, impulsionados pelo retorno das festas após a pandemia e pelo aumento das emendas parlamentares destinadas aos eventos.
A situação levou prefeitos nordestinos a defenderem a criação de limites para as contratações, dando origem ao movimento “São João sem Milhão”, que propõe um teto informal de R$ 700 mil para cachês pagos com recursos públicos.
Na Bahia, o MP e o Tribunal de Contas passaram a recomendar critérios para justificar os valores pagos aos artistas. Como referência, foi adotado o cachê praticado em 2025, corrigido pela inflação. A iniciativa resultou na renegociação de centenas de contratos, gerando uma economia superior a R$ 22 milhões para os cofres municipais.
Entre os artistas que aderiram à redução estão nomes como Solange Almeida, Paula Fernandes, Aldemário Coelho, Mastruz com Leite e a banda Toque Dez, que reduziu o valor cobrado de R$ 500 mil para R$ 400 mil por apresentação.
Por outro lado, a medida provocou reações no meio artístico. O cantor Flávio José cancelou apresentações em municípios baianos após divergências relacionadas ao valor de seu cachê. O episódio reacendeu discussões sobre a valorização do forró tradicional e a presença crescente de artistas sertanejos, de pagode e outros gêneros nas programações juninas.
Prefeitos argumentam que o objetivo não é impedir a realização das festas, mas garantir equilíbrio financeiro. Além dos cachês, os municípios precisam arcar com custos de estrutura, segurança, hospedagem e logística. A preocupação é evitar que os gastos comprometam investimentos em áreas essenciais como saúde e educação.
Mesmo diante das discussões, diversos contratos acima do teto sugerido continuam sendo firmados. O Ministério Público informou que essas contratações serão analisadas com maior rigor, especialmente em cidades com dificuldades financeiras ou que possuam decretos de emergência e calamidade.
Ao todo, as emendas parlamentares devem financiar mais de R$ 73 milhões em cachês para festas juninas na Bahia em 2026. O cenário reforça o debate sobre a necessidade de conciliar a tradição cultural do São João com a responsabilidade fiscal dos municípios nordestinos.